jueves, febrero 06, 2014

"Poema en línea recta", de Álvaro de Campos

© Traducción de Juan Carlos Villavicencio




Nunca conocí a quien le hubiesen dado de bofetadas.
Todos mis conocidos han sido campeones en todo.

Y yo, tantas veces insignificante, tantas veces cerdo, tantas veces vil,
Yo tantas veces indiscutiblemente parásito,
Inexcusablemente sucio,
Yo, que tantas veces no he tenido paciencia para tomar un baño,
Yo, que tantas veces he sido ridículo, absurdo,
Que tengo públicamente envueltos los pies en alfombras de etiquetas,
Que he sido grotesco, mezquino, sumiso y arrogante,
Que he sufrido afrentas y callado,
Que cuando no he callado, he sido más ridículo aún;
Yo, que he sido cómico a las criadas de hotel,
Yo, que he sentido el guiñar de ojos de los mozos de putas,
Yo, que he pasado vergüenzas financieras, pedido prestado sin pagar,
Yo, que, cuando llegó la hora del puñetazo, me agaché,
Más allá de la posibilidad del puñetazo;
Yo, que he sufrido la angustia de las pequeñas cosas ridículas,
Verifico que no tengo par en todo esto en este mundo.

Todo la gente que conozco y que habla conmigo
Nunca cometió un acto ridículo, nunca sufrió de afrentas,
Nunca fue sino príncipe –todos ellos príncipes– en la vida...

Quién me diera oír de alguien la voz humana
Que confesase no un pecado, sino una infamia;
¡Que contase, no violencia, sino cobardía!
No, son todos lo ideal, si los oigo y me hablan.
¿Quién hay en este ancho mundo que me confiese que una vez fue vil?
Oh príncipes, mis hermanos,

¡Arre, estoy harto de semidioses!
¿Dónde hay gente en el mundo?

¿Entonces soy sólo yo el que es vil y erróneo en esta tierra?

Podrán las mujeres no haberlos amado,
Pueden haber sido traicionados – ¡pero ridículos nunca!
Y yo, que he sido ridículo sin haber sido traicionado,
¿Cómo puedo hablar con mis superiores sin titubear?
Yo, que he sido vil, literalmente vil,
Vil en el sentido mezquino e infame de la vileza.














Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. // E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, / Indesculpavelmente sujo, / Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / Que tenho sofrido enxovalhos e calado, / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; / Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, / Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, / Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, / Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, / Para fora da possibilidade do soco; / Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, / Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. // Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida... // Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? / Ó príncipes, meus irmãos, // Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? // Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? // Poderão as mulheres não os terem amado, / Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! / E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, / Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? / Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.










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